Universidade Santa Cecilia

1900: Tráfego livre na estrada!


Artigo publicado no Jornal "A Tribuna" de Santos - jan/2000.

Aureo Emanuel Pasqualeto Figueiredo


Não, meu caro viajante exasperado, não é nenhum delírio saudosista! Imagine que por sortilégios do bug do milênio ou coisa que o valha, você voltasse no tempo até 1900. E, tivesse que ir com urgência de Santos a São Paulo!

Não há ônibus ou automóveis, muito menos estradas de rodagem. Existe, é claro, o Caminho do Mar, mais útil do que atualmente, uma vez que está interditado há muitos anos, pois pelo menos você poderia cumprir, penosamente, o trajeto a cavalo, o que, com certeza, levaria vários dias.

Ou então, como qualquer cidadão de bom senso, você se dirigiria à Estação da São Paulo Railway, no Valongo, tomaria um confortável trem, para cento e cinqüenta minutos depois da partida, descer na Estação da Luz!

Lógico que teria de suportar a viagem descontraída, num trem esperto e um pouco expresso, percorrendo alegremente os manguezais da Baixada; extasiar-se perante a indescritível beleza das cascatas das encostas da Serra do Mar, com seus abismos e talvegues vencidos por obras de arte; surpreender-se com a tecnologia de ponta de então, aplicada ao sistema funicular, onde por contrapesos as composições alternavam-se em pares nos planos inclinados da Serra; com os olhos cheios dessas belezas, seguir, depois, pela paz ondulante das várzeas do Planalto, até chegar na Piratininga de todos os credos e raças.

Pedágio? Nem pensar. IPVA? Muito menos. Seguro? Só se for o seu, e de vida, para garantir o futuro da família em caso de infortúnio ou desarranjo provocado por um sanduíche amanhecido, comprado de um ambulante estridente na parada da estação de Paranapiacaba.

Enfim, a viagem custava apenas isso, o preço da passagem, e mais nada. Claro, teria o sério risco de dormir demais, embalado pelo balanço ritmado das juntas alternadas dos trilhos, uma vez que ainda não se usava a soldagem dos mesmos. Ficou com inveja? De que adianta ter uma linda BMW, caríssima e com tantos cavalos para ficar horas a fio travado nos congestionamentos?

Não, infelizmente seu celular ainda não lhe permite o teletransporte da famosa Enterprise! Nem dá para enviar a si mesmo como anexo em mensagem via Internet. E assim, se você não dispõe de recursos ou não se anima a viajar de helicóptero, conforme-se com sua triste sina, ou deixe a viagem para depois. Esta reflexão pretende apenas chamar sua atenção para um aspecto importante, ausente nos debates de hoje: Porque não se ouve mais falar de trem!!! Porque tanto caminhão em nossas estradas! Porque não há mais trens de passageiros? Temos duas ferrovias ligando Santos a São Paulo e o que está passando por elas?

Viajando pela Europa, vi trens transportando caminhões carregados. Chegando a seus destinos, o caminhão leva a carga até a porta do cliente. É um exemplo claro e funcional da intermodalidade dos transportes. Aqui em Santos, vemos desembarcar vagões dos navios e serem transportados de caminhão!!! Caminhões transportando chapas e bobinas de aço, pesadas cargas que danificam nossas ruas e estradas. É lógico isso? Trem e caminhão não são inimigos, mas elos de uma mesma cadeia de transportes!

Sabemos que a situação é bem complexa. A concessão das ferrovias contemplou apenas o transporte de carga, que os concessionários vão restaurando como podem.

O transporte de passageiros, continua sob responsabilidade do Governo, onde compete com a disponibilidade de verbas para a saúde, a educação, habitação, merenda escolar, segurança, etc... Deu para sentir quando haverá investimentos substanciais na melhoria do transporte ferroviário de passageiros? Porque os trens de subúrbio são modernas latas de sardinha, sem conforto nem decoro? Porque o TIM, Trem Intrametropolitano da Baixada era um arremedo de transporte? Porque a Estação Ana Costa está sendo considerada para tornar-se um Museu Ferroviário? O que leva a Estação do Valongo a permanecer abrigando apenas seus fantasmas seculares em seu sótão britânico?

E tudo isso acontece nas barbas do maior Porto da América do Sul!!!

O transporte ferroviário só é lembrado quando ocorrem eventos tão previsíveis quanto inevitáveis, como os provocados pelas adversidades climáticas e instabilidade das encostas da Serra do Mar. As frias e empoeiradas estatísticas da hidrologia permitem prever razoavelmente os períodos de retorno das grandes precipitações pluviométricas. Antigamente atribuíam-se aos humores de São Pedro os exageros no clima, que a alta tecnologia meteorológica hoje debita à variação da temperatura da água de distantes oceanos.

Quem sabe, se isso infelizmente ocorrer, então, as velhas senhoras Sorocabana e a Ingleza Santos a Jundiaí passem subitamente a ostentar características de sedutoras misses ferroviárias.

Enquanto isso, meu amigo, você que tem um navio esperando por sua carga, custando milhares de dólares por dia de atraso; você que tem um terrível relógio de ponto em seu trabalho em São Paulo; você que depende do transporte para alimentar sua linha de produção, totalmente estruturada para os Tempos Modernos do just-in-time; você que ousa vir à Baixada relaxar e saudar antigas divindades como Baco e Eros embalando-se nos braços de Netuno; você que apenas quer exercer dignamente seu direito de ir e vir, arme-se de muita paciência e espere ter sorte para não passar pela angústia tão grande quanto a do cidadão que viu a esposa entrar em trabalho de parto em seu carro, em meio a um congestionamento no percurso. Graças aos superiores desígnios, felizmente, ela e seu bebê passam bem.

Estamos no ano 2000. O bug não nos atingiu. O Terceiro Milênio em breve estará à nossa porta. Respire fundo e cruze os dedos!


Aureo Emanuel Pasqualeto Figueiredo, 47, Engenheiro mecânico e Civil, Mestre em Engenharia (Transportes) pela Escola Politécnica da USP, Diretor da Faculdade de Engenharia Industrial da Universidade Santa Cecília.


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